Perdidos no mar, materiais aprisionam, mutilam e matam cerca de 70 mil animais marinhos por dia no mundo

 

Meio Ambiente

No momento, projeto desenvolve uma inédita ferramenta de inteligência artificial (Adobestock)

 

Quem for ao Aquário Municipal de Santos, na Ponta da Praia, por certo deverá estranhar a presença de um tanque vazio. No lugar de flora ou fauna marinhas, o visitante encontra redes, cabos, boias, anzóis, linhas, gaiolas e pesos. Esse arsenal compõe o que os cientistas chamam de pesca fantasma.

Perdidos ou deliberadamente abandonados no mar, esses materiais aprisionam, mutilam e matam cerca de 70 mil animais marinhos por dia no mundo. Todo ano, segundo estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 600 mil toneladas de petrechos – nome técnico desses artigos – são perdidos a cada ano no oceano.

Por que pesca fantasma? “Porque você não vê, está longe dos olhos das pessoas. Todos esses materiais são verdadeiras armadilhas. É uma pesca que apenas mata e polui, sem alimentar ninguém, uma pesca fantasma”.

A frase é do cientista Luiz Miguel Casarini, do Instituto de Pesca, na Ponta da Praia, responsável pelo primeiro e mais antigo programa de pesquisa sobre pesca fantasma do Brasil, que neste ano completa uma década de estudos.

Seis toneladas  

Na Baía de Santos e em vários trechos do litoral paulista, a equipe do Instituto de Pesca faz a busca desses materiais com o uso de sonares, junto com mergulhadores voluntários e diversas instituições, entre elas a Fundação Florestal, a Colônia de Pescadores Z1 e a Secretaria de Meio Ambiente (Semam) de Santos.

“O papel da Semam é mapear o material encontrado e atuar na divulgação do problema, além de promover ações de educação ambiental com os visitantes do parque. Por isso, criamos um tanque dedicado a informar sobre a pesca fantasma”, diz o coordenador do Aquário, o biólogo Alex Ribeiro.

Nestes dez anos de trabalho, revela Casarini, seis toneladas de materiais já foram retiradas da baía e de diversos trechos do litoral paulista. “E, se você pensar que cada rede de cinco metros de altura por 100 de comprimento não tem nem um quilo, terá a ideia da dimensão do problema”, diz.

Inteligência artificial

No momento, o projeto, em parceria como Senai, desenvolve uma inédita ferramenta de inteligência artificial. O objetivo é dar um selo de procedência e rastreabilidade para os produtos feitos com o plástico dos petrechos retirados do mar.

O plástico das redes, por exemplo, pode ser reciclado e se transformar em vários produtos. Porém, como saber realmente se aquele produto foi feito a partir da reciclagem de um petrecho retirado do mar?

“Com o recurso da inteligência artificial, será possível fazer essa comprovação para os consumidores. Estamos criando uma solução local para um problema mundial”, explica Casarini.

Um mundo insaciável

Nunca se consumiu tanto pescado no mundo. Em 1960, eram nove quilos por pessoa, em média. Em 2020, prevê-se chegar a 21, segundo a ONU. Por ano, setor movimenta US$ 40 trilhões (R$ 154,3 trilhões) ao ano e emprega 800 milhões de pessoas. Mas, para os cientistas, todo esse movimento é insustentável.

“Pesca-se acima da capacidade de reprodução de muitas espécies e, para piorar, muitos consumidores não sabem e acabam contribuindo para o colapso da atividade”, explica a oceanógrafa Cintia Miyaji, que em 2008 criou o primeiro Guia de Pescado Sustentável do Brasil.

Agora, Cintia dá mais um passo nesse pioneirismo. Acaba de sair a versão mais recente do guia, que incorpora um chatbot – um programa de computador que utiliza inteligência artificial para imitar conversas com os usuários.

“Além do robô, que torna o uso do guia mais amigável, a nova versão oferece links para quem quiser mais detalhes e muitas imagens”, explica a pesquisadora santista, salientando que o próximo passo é criar um aplicativo de rastreabilidade do pescado.

“Todo peixe tem uma história para contar. Onde foi pescado, quem pescou, como e quando foi capturado? Queremos que as pessoas possam ter acesso fácil a essa informação e, assim, consumir com responsabilidade”, diz.

Para ampliar o uso do guia, a Prefeitura de Santos, por meio da Secretaria de Meio Ambiente, distribuirá colantes como endereço eletrônico do Guia de Pescado Sustentável (via QRCode) para o setor de hotéis, bares e restaurantes.

O objetivo, segundo a Semam, é que o setor incorpore essa informação, por exemplo, nos cardápios. “É um passo local que, se for bem aceito, pode até ser um exemplo nacional”, afirma o secretário de Meio Ambiente, Marcos Libório.

Alerta

Relatório recém-publicado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) estima que 80% dos estoques globais de peixes estão “totalmente explorados, esgotados ou em estado de colapso”. O relatório cita, ainda, que 35% da pesca mundial é desperdiçada, seja por devoluções, quando os peixes são devolvidos mortos ao mar por serem pequenos, ou de uma espécie não desejada ou por falhas no armazenamento.

Agende-se:

Quinta-feira (6)

Orquidário

❚ 15h: Contação de história

❚ 19h: Oficina Cuidadores de Árvores

Aquário

❚ Manhã: Mesa de Investigação Marinha e Contação de História

Jardim Botânico Chico Mendes

❚ 14h30: Demonstração de composteira

❚ 16h: Contação de Histórias

UniSantos Campus D. Idílio (Avenida Cons. Nébias, 300, sala 311, Vila Mathias)

❚ 14h30: Oficina de Compostagem

 

 

Fonte: A Tribuna, Junho/2019 (https://www.atribuna.com.br)

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