DISTRIBUIÇÃO E ALIMENTAÇÃO DE PEIXES DA FAMÍLIA ANOSTOMIDAE NO RIO IBICUÍ, RIO GRANDE DO SUL, BRASIL.

Éverton Luís ZARDO¹; Vanessa Medeiros da ROSA²; Everton Rodolfo BEHR³

RESUMO

O objetivo do presente trabalho foi avaliar aspectos da distribuição e hábito alimentar de seis espécies da família Anostomidae. Foram utilizadas redes de espera e feiticeiras em ambientes lênticos e lóticos ao longo do rio Ibicuí. Os exemplares foram medidos e pesados, e em laboratório foram dissecados para a avaliação do conteúdo estomacal e determinação do quociente intestinal. A espécie Leporinus lacustrisapresentou preferência por ambiente lêntico e as espécies Leporinus striatus e Schizodon platae apresentaram preferência por ambiente lótico. As espécies do gênero Leporinus apresentaram dieta onívora, com uma maior variedade de itens consumidos em relação às espécies do gênero Schizodon, as quais apresentaram uma dieta basicamente herbívora. O item detrito foi o mais consumido para espécies do gênero Leporinus e vegetais em decomposição foi o item mais consumido pelas espécies do gênero Schizodon. O quociente intestinal encontrado está de acordo com o encontrado para outras espécies onívoras, e no caso de Schizodon platae e Schizodon nasutus, abaixo do encontrado para espécies herbívoras.

Palavras-chave: dieta; índice alimentar; quociente intestinal;Leporinus; Schizodon

 

DISTRIBUTION AND FEEDING OF FISH FROM ANOSTOMIDAE FAMILY IN IBICUI RIVER,RIO GRANDE DO SUL, BRAZIL.

ABSTRACT

The aim of this work was evaluate aspects of distribution and feeding habits of six species of Anostomidae. Gillnets and trammel nets were used in lotic and lentic environment in Ibicui River. The specimens were measured and weighed, and in laboratory were dissected for evaluation of stomach contents and determination of Intestinal Quotient. The species Leporinus lacustris showed a preference for lentic environment, Leporinus striatus and Schizodon platae for lotic environment. The species of the genus Leporinusshowed an omnivorous diet with a greater variety of consumed items in relation to Schizodon, which showed an herbivorous diet. Detritus was the most consumed item by species of Leporinus genus and plant in decomposition was the most consumed by Schizodon. The Intestinal Quotient agree with observed for others omnivorous species, however in Schizodon platae and Schizodon nasutus this parameter is lower than found for other herbivorous species.

Key-words: diet; feed index; intestinal quotient; Leporinus; Schizodon

 


INTRODUÇÃO

A família Anostomidae é um grupo de peixes da ordem Characiformes, composto por aproximadamente de 155 espécies distribuídas em 14 gêneros, restritas à América do Sul e com representantes em todas as bacias hidrográficas do Brasil (SANTOS, 1982; ESCHMEYER e FONG, 2014). Este grupo de peixes tem elevada importância comercial e espécies de pequeno porte têm grande aceitação na aquariofilia. Algumas espécies alcançam cerca de 400 mm de comprimento e mais de um quilo em peso (SANTOS e JEGU, 1996).

Algumas espécies do gênero Leporinus vêm sendo estudadas quanto ao hábito alimentar e aspectos populacionais em diversas bacias brasileiras, como L. friderici, L. striatus, L. elongatus,L. trifasciatus, L. affinis, L. taeniata, L. taeniofasciatus, L. petiti, L. octofasciatuse L. amblyrhynchus (DURÃES et al., 2001; ALBRECTH e PELEGRINI-CARAMASCHI, 2003; BALASSA et al., 2004; MELO e RÖPKE, 2004). O gênero Schizodontambém vem sendo estudado em algumas regiões, como S. intermedius (YABE e BENNEMANN, 1994), S. borellii e S. altoparanae(FERRETI et al., 1996), e S. nasutus (VILLARES-JÚNIOR et al., 2011). No Rio Grande do Sul são escassos os estudos sobre a alimentação e outros aspectos da biologia destes gêneros, com exceção de um estudo realizado com L. obtusidens no lago Guaíba, Porto Alegre, onde a espécie foi considerada herbívora-iliófaga pelos autores e apresentou variações sazonais na atividade alimentar (HARTZ et al., 2000).

Estudos no campo da alimentação são de fundamental importância para todos os organismos, sob quaisquer condições. Em ecologia, para o completo entendimento do comportamento de uma espécie, sob os aspectos reprodutivos, crescimento, mortalidade, natalidade e migração, dentre outros, é imprescindível o conhecimento de sua necessidade alimentar (ANDRIAN e BARBIERI, 1996).

Segundo WOOTTON (1990), a alimentação de peixes representa uma interação entre suas preferências alimentares e a possibilidade de acesso aos recursos do ambiente. Nesse sentido, a atividade alimentar e a dieta podem variar em razão de diversos fatores, diferindo de acordo com as características ambientais e da espécie estudada. Tais mudanças estão principalmente relacionadas à qualidade e quantidade de alimentos encontradas em determinado habitat e do nível trófico ocupado pela espécie (HAHN et al., 1997). Estudos envolvendo aspectos biológicos de determinada espécie, além de nos fornecer informações importantes relacionadas aos aspectos já mencionados, nos permitem explorar estes conhecimentos e utilizá-los de forma aplicada, na conservação de espécies, manejo adequado de estoques e até mesmo no cultivo.

Devido à escassez de estudos relativos à alimentação e distribuição de espécies da família Anostomidae na região, o presente trabalho tem como objetivo avaliar os hábitos alimentares e aspectos da distribuição de espécies desta família no rio Ibicuí, sendo elas: L. elongatus, L. obtusidens, L. striatus, L. lacustris, S. nasutus e S. platae, conhecidas popularmente como piapara, piava e voga.

MATERIAL E MÉTODOS

O rio Ibicuí é um dos principais tributários do rio Uruguai, formado no seu trecho inicial pelos rios Ibicui-Mirim e Santa Maria, no Estado do Rio Grande do Sul. O rio possui substrato arenoso e, apesar de estreito, apresenta muitos pântanos nas suas margens e uma ampla planície de inundação (RAMBO, 1994).

Os locais das coletas foram escolhidos no trecho entre os municípios de São Vicente do Sul e Itaqui. O ponto 1 é localizado abaixo da foz do Rio Santa Maria, entre São Vicente do Sul e Cacequi (29°48’S; 54°58W); o ponto 2 está localizado no trecho médio do rio Ibicuí, entre Manoel Viana e Alegrete (29º29’S; 55º45’W) e o ponto 3 está localizado acima da foz do rio Ibirocai, entre Itaqui e Alegrete (29º25’S; 56º37’W) (Figura 1).


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Figura 1. Área de estudo com os pontos de amostragens ao longo do rio Ibicuí. P1 = Ponto 1, P2 = Ponto 2 e P3 = Ponto 3.


Em cada ponto, os espécimes foram coletados em ambientes lóticos e lênticos representados respectivamente pelo eixo principal do rio e pelos lagos ou canais secundários que são conectados com o rio na maior parte do ano. Os ambientes lênticos apresentam, além da distância geográfica entre si, outras características que os diferenciam. No ponto 1, este ambiente é o canal de um pequeno córrego, mas forma uma lagoa quando o nível hidrológico está alto, localizada a cerca de 40 mde distância do eixo principal do rio. Em períodos de águas baixas, permanece somente o canal, sem correnteza, com largura variando entre três e oito metros. No ponto 2 alagoa está conectada ao rio por um estreito e curto canal (dois a três metros de largura e cerca de oito metros de comprimento). Esta é profunda e suas margens são totalmente cobertas por vegetação arbórea e arbustiva, com muitos galhos de árvores caídos em suas margens. Esta lagoa tem cerca de 150 m de comprimento e 70 m de largura, ficando isolada do rio em períodos de águas baixas. A lagoa do ponto 3 possui grandes proporções, com praticamente a mesma largura que o rio (em torno de 200 m), tendo sua maior largura no ponto em que se liga a ele.

Foram realizadas coletas bimestrais, de janeiro de 2000 a dezembro de 2001, totalizando 36 campanhas e 12 amostragens em cada ponto. Para cada ambiente foram utilizados 10 m de redes de espera com malhas de 1,5; 2,0; 2,5 e 3,0 cm; 20 mde redes de espera com malhas de 4,0; 5,0; 6,0; 8,0 e 10,0 cm; feiticeiras 4,0/20,0; 5,0/20 e 6,0/20,0 (todas as malhas medidas entre nós adjacentes). As redes permaneceram na água por 24 horas, sendo revisadas a cada seis horas (6h, 12h, 18h e 24h).

Os peixes foram numerados, fixados em solução de formalina 10% e depois conservados em álcool 70% conforme MALABARBA e REIS (1987) para posteriores análises. Em laboratório, foram tomadas as medidas de comprimento total () e comprimento padrão (), medido até a inserção do pedúnculo caudal em centímetros e peso total () em gramas. As amostras foram coletadas com a permissão do IBAMA (135/99). Espécies testemunhas foram depositadas no Museu de Ciência e Tecnologia da PUC (MCP 28917; MCP 31822; MCP 34446; MCP 29191; MCP 28413 e MCP 28908).

Os itens alimentares foram identificados através de microscópio estereoscópico e microscópio ótico até a menor categoria taxonômica possível. Esta identificação foi realizada de acordo com a literatura (NEEDHAM e NEEDHAM, 1982; MUGNAI et al., 2010) e consulta à especialistas. Cada item alimentar foi analisado de acordo com a frequência de ocorrência (HYNES, 1950) e pelo método volumétrico (HYSLOP, 1980). A frequência de ocorrência foi calculada considerando o número de estômagos que continha determinado item alimentar em relação ao total de estômagos com conteúdo, seguindo a seguinte fórmula: , onde: Frequência de ocorrência do item alimentar ; Número de estômagos que contém o item alimentar ; Número total de estômagos com conteúdo.

A participação volumétrica de cada item foi estimada a partir de sua contribuição percentual em relação ao volume de todo o conteúdo estomacal, usando tubos de ensaio graduados e papel milimetrado (HELLWELL e ABEL, 1971). Os dois métodos foram combinados para a obtenção do índice de importância alimentar () (KAWAKAMI e VAZZOLER, 1980), seguindo a seguinte fórmula:

 

,

 

onde: Índice Alimentar; Frequência relativa do item; Participação volumétrica relativa do item .

Os itens alimentares encontrados nos conteúdos estomacais das cinco espécies analisadas foram agrupados em nove categorias, sendo elas: detrito, insetos adultos e larvas da ordem Diptera, larvas de Trichoptera, material vegetal, sedimento, escamas, restos de peixes e restos de insetos, sendo estes dois últimos nomeados desta forma pela dificuldade de determinar sua classificação taxonômica em função do avançado grau de digestão. Na categoria detrito, foi considerado todo material orgânico finamente particulado, em avançado grau de digestão, não sendo possível estabelecer se era de origem animal ou vegetal, enquanto que na categoria sedimento foram incluídas partículas de areia e material inorgânico (SIMABUKU e PERET, 2002; DIAS e FIALHO, 2011). L. elongatus não apresentou dados suficientes para a realização das análises.

O quociente intestinal (QI), representado pela relação entre o comprimento do intestino e o comprimento padrão (Ls) (ZAVALA-CAMIN, 1996) foi calculado para contribuir com a avaliação do hábito alimentar das espécies. A homogeneidade de variâncias foi testada através do teste de normalidade (Shapiro-Wilk), e por não apresentarem distribuição normal, as médias do QI foram comparadas bimestralmente através do teste não paramétrico de Kruskal-Wallis, considerando erro de 5%. Para avaliar a distribuição espacial e sazonal de cada espécie, foi realizado o teste Qui-quadrado (proporções esperadas iguais), considerando erro de 5%.

RESULTADOS

Foram capturados 264 peixes da família Anostomidae, distribuídos em dois gêneros e seis espécies. A espécie de maior abundância foi Schizodon platae com 98 exemplares (χ² = 95,54; p < 0,05), seguida de Leporinus obtusidens (n = 49), S. nasutus (n = 45), L. lacustris (n = 30), L. striatus (n = 23) e L. elongatus (n = 19). Os tamanhos médios, mínimos e máximos e seus respectivos desvios padrão se encontram na Tabela 1.

Analisando a distribuição espacial por espécie, L. lacustris apresentou preferência por ambiente lêntico (χ² = 6,36; p < 0,05), L. striatus (χ² = 5,26; p < 0,05) e S. platae (χ² = 4,08; p < 0,05) apresentaram preferência por ambiente lótico. As demais espécies não apresentaram preferência por determinado ambiente, distribuindo-se regularmente entre ambientes lóticos e lênticos (Figura 2). Em relação às estações do ano, houve um maior número de capturas na primavera (χ² = 56,81; p < 0,001). As espécies L. elongatus e L. lacustris apresentaram um maior número de capturas no verão, enquanto S. platae na primavera (Tabela 2).


 

 

Tabela 1. Medidas morfométricas das espécies da família Anostomidae capturadas no rio Ibicuí, RS. (CP) Comprimento Padrão (cm), (PT) Peso Total (g) e (DP) Desvio padrão.

Medidas morfométricas

Espécie

CP mínimo

CP máximo

CP médio

DP

PT mínimo

PT máximo

PT médio

DP

L. obtusidens

7,4

41,5

30,72

±8,55

13

1650

868,45

±410,38

L. elongatus

15,5

44,5

27,51

±9,15

95

2230

628,64

±617

L. lacustris

10,5

21,5

15,27

±3,22

44

433

161,20

±109,42

L. striatus

9,8

21,5

13,22

±3,99

21

46

24,13

±9,44

S. nasutus

13,8

32,8

24,92

±5,02

54

700

325,70

±157,70

S. platae

9,4

32,2

26,36

±3,16

15

700

380,59

±149,21

 

 

 

 


 

*Diferença significativa na captura entre os ambientes para a mesma espécie, de acordo com o teste Qui-quadrado (p<0,05).

Figura 2. Capturas de Anostomídeos por ambiente no rio Ibicuí, RS.

 


Tabela 2. Abundância das espécies da família Anostomidae capturadas no rio Ibicuí, RS e suas respectivas proporções representadas pelo teste Qui-quadrado () de acordo com as estações do ano.

Estações

Espécie

Verão

Outono

Inverno

Primavera

p

L. obtusidens

15

6

10

18

6,91

0,07

L. elongatus

12

2

2

4

15,73

0,001

L. lacustris

17

3

8

2

18,8

<0,001

L. striatus

11

2

0

10

6,40

0,04

S. nasutus

10

5

13

16

6,00

0,11

S. platae

19

4

22

53

51,79

<0,001

Total

84

22

33

103

56,81

<0,001

p< 0,05 indica diferença significativa na abundância entre as estações.

 


O item detrito foi o mais frequente nos estômagos de peixes do gênero Leporinus, enquanto material vegetal foi mais frequente em S. nasutus e S. platae (Tabela 3). Resultados semelhantes foram encontrados para o percentual volumétrico e índice alimentar (Tabelas 3 e 4). Em relação ao Quociente intestinal, L. elongatus apresentou o maior valor (QI = 1,24;), sendo o menor valor deste parâmetro obtido para L. striatus (QI = 0,98). As demais espécies apresentaram QI semelhantes (L. obtusidens = 1,09; L. lacustris = 1,18; S. platae = 1,22 e S. nasutus = 1,23).


 

 

Tabela 3. Frequência de Ocorrência (FO) e Percentual Volumétrico (PV) dos itens alimentares consumidos pelas espécies da família Anostomidae no rio Ibicuí, RS. (LD) Larvas de Diptera, (LT) Larvas de Trichoptera, (VD) Vegetal em decomposição, (RI) Restos de insetos, (RP) Restos de peixes.

Espécies

 

 

L. lacustris

L. striatus

L. obtusidens

S. nasutus

S. platae

 

Itens alimentares

FO%

PV%

FO%

PV%

FO%

PV%

FO%

PV%

FO%

PV%

Detrito

78,57

70,12

100

66,56

92,85

47,96

40,00

 

4,68

29,41

 

1,20

Diptera

-

-

-

-

-

 

-

-

2,94

 

0,007

Escamas

-

-

-

-

-

 

-

-

5,88

 

0,19

LD

7,14

1,41

-

-

14,28

1,11

10,00

 

0,02

8,82

 

0,007

LT

-

-

-

-

14,28

1,06

5,00

 

0,002

-

-

VD

64,28

27,22

80,00

29,66

64,28

45,60

90,00

 

 

95,28

91,17

 

98,58

RI

14,28

 

0,05

20,00

3,76

14,28

4,09

-

-

-

-

RP

7,14

 

0,46

-

-

-

-

-

-

-

-

Sedimento

28,57

 

0,72

-

-

7,14

0,15

-

-

-

-

 


Tabela 4. Índice alimentar de Anostomídeos capturados no rio Ibicuí, RS. (LD) Larvas de Diptera, (LT) Larvas de Trichoptera, (VD) Vegetal em decomposição, (RI) Restos de insetos, (RP) Restos de peixes.

Índice alimentar

Itens alimentares

L. lacustris

L. striatus

L. obtusidens

S. nasutus

S. platae

Detrito

75,534

73,10

59,57

2,34

0,39

Diptera

-

-

-

-

0,00

Escamas

-

-

-

-

0,01

LD

0,13

-

0,21

0,002

0,00

LT

-

-

0,20

0,00

-

VD

23,98

26,06

39,21

97,64

99,59

RI

0,01

0,82

0,78

-

-

RP

0,04

-

-

-

-

Sedimento

0,282

-

0,01

-

-

 


DISCUSSÃO

No alto rio Uruguai, ZANIBONI-FILHO et al., (2004), encontraram uma amplitude que variou entre 20 e 76 cm e 160 e 5752 g para L. obtusidens, sendo esta espécie considerada de grande porte, o que em parte justifica o seu grande interesse para a pesca e piscicultura. Os mesmos autores também encontraram tamanhos semelhantes aos encontrados no presente estudo para L. striatus, com o comprimento variando entre 11,3 e 16,4 cm e peso variando entre 12 e 38,4 ge para S. nasutus, com comprimento variando entre 11 e 40 cme peso entre 7 e 629 g. Em outros trabalhos com descrição dos tamanhos corporais para espécies desta família, BALASSA et al., (2004) encontraram resultados semelhantes em exemplares de L. elongatus, medindo entre 15 e 36 cm na área de influência do Reservatório Manso, no Mato Grosso e L. striatus medindo entre 6 e 11 cm. No entanto, o tamanho máximo registrado para L. elongatus é de 39,8 cm (ANDRADE e BRAGA, 2005), abaixo do encontrado para esta espécie no presente estudo. Algumas diferenças de tamanhos podem ser encontradas dentro de uma mesma espécie em diferentes bacias, devido a alguns fatores ambientais e densidade populacional, que quando é maior, reduz os comprimentos assintóticos de uma população (GURGEL e MENDONÇA, 2001). Este fato ocorre, pois, à medida que a população cresce, a quantidade de alimento disponível decresce na mesma proporção, alterando os tamanhos médios dos exemplares (GURGEL e MENDONÇA, 2001). Além disso, há o efeito da seletividade de redes, no momento das capturas, fazendo com que exemplares com tamanhos limitados pelos apetrechos de pesca utilizados, sejam coletados.

Em relação à distribuição sazonal, BENNEMANN et al., (2000) obtiveram um maior número de exemplares de L. elongatus e S. nasutusno mês de novembro no rio Tibagi, Paraná.As espécies S. intermedius e L. friderici também foram mais abundantes nesse período no trabalho citado acima. O maior número de capturas em determinadas épocas do ano se deve principalmente à sazonalidade, que altera os ritmos alimentares e a atividade reprodutiva das espécies.

Poucos trabalhos tratam a respeito da preferência destas espécies por determinado tipo de ambiente. Anostomídeos em geral parecem não apresentar preferência ambiental marcante, adaptando-se facilmente às diferentes características e alterações ambientais, assim como reportado por BALASSA et al., (2004) no Reservatório de Manso, onde foi observada uma certa plasticidade e adaptação na ocupação de diferentes habitats. A ocupação do habitat por determinadas espécies pode variar ao longo de sua vida, em função de alterações fisiológicas, biológicas e ambientais. Muitas espécies ocupam diferentes locais de um ambiente nas diferentes fases de sua vida, fazendo com que os habitats de alimentação, crescimento e reprodução sejam diferentes ao longo de seu desenvolvimento (AGOSTINHO et al., 2007).

Em estudos já realizados com algumas espécies do gênero Leporinus, estes são geralmente classificados como onívoros pela maioria dos autores devido à grande diversidade de itens presentes em suas dietas (ANDRIAN et al., 1994; HAHN et al., 1997; MELO e ROPKE, 2004). BALASSAet al., (2004) encontrou um amplo espectro alimentar, sendo a dieta composta por vegetais, detritos, insetos de diferentes ordens, invertebrados aquáticos e até peixes em quatro espécies de Leporinus no reservatório de Manso, MT DURÃESet al., (2001) encontrou insetos da ordem Diptera, macrófitas aquáticas e terrestres, algas filamentosas, Isoptera, além de outros itens na dieta de quatro espécies do gênero Leporinus na barragem de Nova Ponte, em Minas Gerais. HARTZ et al., (2000) encontrou vegetais superiores, sedimento e moluscos como itens principais na dieta de L. obtusidensno lago Guaíba, classificando-a como herbívora-iliófaga. Apesar de Anostomídeos frequentemente serem classificados como onívoros, dentro da família e até mesmo dentro de um mesmo gênero, há grandes variações no espectro alimentar, o que faz com que ocorra estas divergências quanto à classificação de seu hábito. HAHNet al., (1997) classificam L. lacustris como herbívora, L. elongatus e L. vittatus como insetívoras e L. obtusidens e L. octofasciatuscomo onívoras na planície de inundação do alto rio Paraná. Os mesmos autores também classificam S. altoparanae, S. borelli e S. nasutus como herbívoras, devido ao elevado consumo de vegetais superiores. O gênero Schizodonapresenta uma dieta basicamente composta por vegetais, assim como relatado por FERRETIet al., (1996) no alto rio Paraná para S. borelli e S. altoparanae e por YABE e BANNEMANN (1994) no rio Tibagi, PR, onde além de vegetais, foram encontradas algas e microcrustáceos no conteúdo estomacal de S. intermedius. VILLARES-JÚNIOR et al., (2011) observaram um grande consumo de gramíneas (Poaceae) no trato de S. nasutus, havendo ainda consumo relativamente elevado de fibras vegetais, algas, raízes e sedimento.

O elevado consumo de detrito pelas espécies do gênero Leporinus se deve ao fato de ter sido considerado nesta categoria itens em avançado grau de decomposição, os quais não permitiram definir se eram de origem vegetal ou animal. Muito provavelmente, a grande maioria destes materiais eram oriundos de insetos em decomposição presentes no fundo do rio. Da mesma forma, a presença de larvas em estágios apenas iniciais de digestão ou até mesmo intactas, indicam oportunismo, pois provavelmente estas foram consumidas ainda vivas na coluna d’água. Ambos os comportamentos relatados acima são mencionados na literatura para espécies do gênero Leporinus (HARTZ et al., 2000; MELO e RÖPKE, 2004).

Espécies onívoras com estratégias oportunista ou generalista são amplamente distribuídas em rios neotropicais. Esta plasticidade trófica é resultado do ajustamento evolutivo das espécies ao longo dos anos como adaptação às flutuações na disponibilidade de alimento, que são regidas principalmente pelas variações pluviométricas no regime hidrológico (AGOSTINHO et al., 2007). Além disso, esta plasticidade observada nas espécies onívoras não se mostrou uma estratégia evolutiva arriscada, uma vez que estas espécies podem se adaptar às alterações na disponibilidade de alimento ao longo dos anos, o que não acontece em espécies específicas, por exemplo, as quais apresentam adaptações morfológicas que as permitem explorar apenas algum tipo de alimento (AGOSTINHO et al., 2007; BONE e MOORE, 2008). De acordo com ABELHA et al., (2001), o hábito alimentar de uma espécie pode ainda apresentar variações ontogenéticas, muito relacionadas com as alterações morfológicas nas estruturas utilizadas na alimentação e alterações na demanda energética.

Os valores de quociente intestinal observados para estas espécies estão dentro do esperado para peixes onívoros, que segundo WARD-CAMPBELL (2005) varia entre 1 e 3, sendo acima de 3 encontrado em espécies herbívoras ou detritívoras. No entanto, esta classificação é um tanto quanto subjetiva e não pode ser utilizada unicamente para se avaliar o hábito alimentar de uma espécie, devendo servir apenas como um estudo complementar em ecologia trófica de peixes. O quociente intestinal descrito para outras espécies do gênero Schizodon são semelhantes aos descritos no presente trabalho. S. borelli e S. altoparanae apresentaram quociente intestinal de 1,35 e 1,41 respectivamente (FERRETI et al., 1996), enquanto S. intermedius apresentou um QI de 1,34 (YABE e BENNEMANN, 1994). ALBRECTH et al,. (2001) encontraram valores de 1,25 e 1,14 para L. friderici e L. taeniofasciatus respectivamente. Este parâmetro além de variar conforme o hábito alimentar, sendo maior em detritívoros e herbívoros e em menor, onívoros e carnívoros, pode ainda variar conforme a dieta da espécie, se elevando em períodos de maior atividade alimentar ou até mesmo em função do consumo de itens de menor valor nutricional ou de difícil digestão (DRAKE et al., 1984; ZAVALA-CAMIN, 1996).

CONCLUSÃO

As espécies da família Anostomidae não se mostraram abundantes no rio Ibicuí, distribuindo-se uniformemente ao longo dos ambientes estudados, com exceção de L. lacustris, L. striatus e S. platae, as quais apresentaram preferência por ambientes lênticos e lóticos respectivamente.

As espécies do gênero Leporinusapresentaram hábito alimentar onívoro, consumindo uma maior variedade de itens em relação às espécies do gênero Schizodon, as quais apresentaram uma dieta mais herbívora.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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AGOSTINHO, A.A.; GOMES, L.C.; PELICICE, F.M. 2007 Ecologia e manejo de recursos pesqueiros em reservatórios do Brasil. Maringá: EDUEM, 501p.

ALBRECHT, M.P.; FERREIRA, M.F.N.; CARAMASCHI, E.P. 2001 Anatomical features and histology of the digestive tract of two related neotropical omnivorous fishes (Characiformes; Anostomidae). Journal of Fish Biology, 58(2): 419-430.

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